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Hoje, Campo Grande, situação muito insólita e inesperada. Quem estaciona por aqueles lados sabe que por ali há um descampado de terra onde muita gente deixa o carro, eu incluída. Tirando os arrumadores, não se paga, e quem por lá passa todos os dias acaba por se habituar a dar uma moeda às mesmas caras de sempre.

Hoje, o senhor, já de idade, a quem costumo dar uma moeda de vinte cêntimos interpelou-me com "hoje está muito calor, menina!". Agarrado ao seu andarilho e de chapéu-de-chuva ao ombro, nota-se que (ao contrário dos outros que por lá andam) este passa por dificuldades. Sorri, e reconheci que sim, que estava muito calor, e vim-me embora. Vinte passos depois lembro-me que tenho uma garrafa de água fresca na mala e volto atrás, muito rapidamente, e pergunto-lhe se quer água. Diz-me que sim, e eu pego na garrafa e entrego-lha para a mão com um "até logo". O que se passou depois era qualquer coisa que na minha imaginação seria impossível de acontecer, talvez por nunca ter estado numa situação igual à dele.

Já estava de costas quando me volta a interpelar e dizer que, afinal, não queria, porque a garrafa já estava aberta. Efetivamente estava, porque tenho por hábito reutilizar as garrafas de plástico e enchê-las com água da torneira. Expliquei-lhe isso, mas ele voltou a recusar e devolveu-me a garrafa.

Enquanto ia a caminho da faculdade, ainda aparvalhada com o que acabara de acontecer, questionei-me por que motivo teria ele recusado água (fresca) num dia de tanto calor. Terá achado que a água tinha alguma coisa que lhe faria mal propositadamente? Não consigo encontrar outros motivos plausíveis para justificar tal atitude. E ainda que no momento me possa ter sentido ofendida (quão egocêntrico da minha parte), agora, algumas horas depois, pergunto-me quantas pessoas já o terão tentado magoar, passando-se por alguém que quer ajudar, só por ser sem-abrigo.

Não conheço a história dele, nem sequer lhe sei o nome, mas penso o quão difícil deve ter sido recusar água quando precisava dela. Não me é possível colocar no lugar dele, porque ao contrário desta pessoa, que vive sem nada nem ninguém, eu tenho muito (coisas até demais) e família e amigos para me ajudar quando preciso. Se muitas vezes questiono segundas intenções de pessoas que conheço, não me passa pela cabeça ser sem-abrigo numa sociedade que lida com estas pessoas como se fossem um tabu, como se não existissem, até mesmo como se fossem pragas que é preciso abater.

Amanhã, quando o voltar a ver, sair-me-á um bom dia, uma moeda de vinte cêntimos e, a partir de agora, a consciência de que existem pessoas que enquanto este senhor continuar sem-abrigo, lhe vão querer fazer mal.

E claro, sem esquecer a garrafa de água, desta vez novinha em folha!

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16 comentários

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De moon a 08.06.2016 às 12:38

ainda que não conheça a história dele e acreditando que passa por dificuldades, não estranhei ele recusar a garrafa por já estar aberta. não posso comparar-me a ele (claramente) mas eu sou uma pessoa que não partilha bebidas mesmo com amigos, mesmo que saiba que eles não têm doenças, não o faço. não deixo ninguém passar sede e muitas vezes, quando tenho uma garrafa e me pedem água porque não têm eu dou a garrafa e não bebo mais dela. acredito que esse senhor possa pensar em doenças e claro que a possibilidade da qual falaste, de já lhe terem tentado fazer mal, pode ter sido uma realidade. não fiques ofendida, é normal, são coisas normais para uma pessoa que vive uma vida normal, portanto imagino para quem vive na rua.. :/
a tua atitude é muito bonita, era bom que mais pessoas a tivessem :)
beijinhos xx
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De Carolina a 14.06.2016 às 13:27

Eu gostava era que a minha atitude não fosse considerada "bonita" mas sim norma. Aí é que eu ficava feliz, porque hoje só posso ficar triste por saber que aquela pessoa tem uma vida miserável às custas de uma sociedade que não se preocupa com os sem-abrigo que, efetivamente, são tão pessoas quanto nós.
Beijinhos e obrigada pelo comentário!
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De Maria Flor a 14.06.2016 às 15:53

Não é fácil nos colocarmos no lugar de um sem abrigo. Até porque cada um tem uma história diferente.
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De Descontos a 14.06.2016 às 07:33

Estou precisamente a ler um livro sobre o sentimento de desconfiança e medo que acompanha a pobreza.
Mas não posso deixar de fazer notar algo de diferente. Costumo dizer que as acções ficam com quem as pratica. Uma boa parte das pessoas que conheço atiraria os braços ao ar e diria: aquele ingrato. A empatia é já uma qualidade rara, de seres elevados e a Carolina tem-na e espero que nunca a perca.
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De Carolina a 14.06.2016 às 13:32

Qual é o livro? Parece-me uma temática muito interessante, fiquei curiosa!
Confesso que nos primeiros momentos o meu pensamento quase escorregava para esse "ingrato" mas, depois, apercebi-me de tudo aquilo que escrevi aqui em cima e cheguei à conclusão de que a vida para estas pessoas é tão difícil quanto ter que recusar água (ainda hoje, uma semana depois, estou parva).
Beijinhos
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De Descontos a 14.06.2016 às 13:47

Lila de Marilynne Robinson

Mas sugiro que leia também o Gilead, da mesma autora.

Na verdade, é uma triologia, mas os livros podem ser lidas de forma independente.
Por exemplo, o Gilead (1) e o Lila (3) representam as vidas dos membros de um casal (Gilead é a terra onde vivem e é a perspectiva do marido, um pastor) e Lila é a sua jovem esposa, que teve uma vida nómada durante a grande depressão.

O 2º livro da triologia é a história na perspectiva de um outro residente da terra. Não foi publicado em Portugal e tem o título Home.

Francamente, estou completamente encantada com a escrita de Marilynne Robinson. Recomendo.
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De Ana Maria a 14.06.2016 às 10:20

Podem ter perdido tudo, mas precisam da dignidade. Dou-lhe os parabéns. O "portuguesinho" ficava logo eriçado por não sido aceite a "caridadezinha". O que melhor podemos dar é a dignidade, não a complac~encia (que é um insulto). Parabéns, parabéns, parabéns...
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De Carolina a 14.06.2016 às 13:34

Sem dúvida Ana, e foi isso que este senhor me ensinou em pouquíssimas palavras mas com um gesto tão forte (a recusa de um bem essencial).
Beijinhos e obrigada.
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De Ana Maria a 14.06.2016 às 15:02

Eu é que agradeço. Foi mais uma areia no meu camião de otimismo. vale a pena acreditar
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De Helena A. a 14.06.2016 às 11:16

Olá Carolina!
Sim, infelizmente é verdade, há quem faça mal a estas pessoas...
E por isso, a prevenção dele em não aceitar uma garrafa já aberta...
Ao que a maldade alheia leva uma pessoa... a rejeitar água, porque tem receio que lhe façam mal!
Mas ainda bem que percebeste o porquê!!!!
Tu ao contrário de muitas pessoas vais continuar a ajudar. Outra pessoa no teu lugar acharia que ele tinha sido ingrato e nunca mais o ajudaria!
Bem hajas por seres uma pessoa bem formada!
Beijinhos de Lisboa!
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De Carolina a 14.06.2016 às 13:36

Olá Helena,
Talvez por alguma ingenuidade não fazia ideia de que as coisas chegavam a este ponto.
É triste mas é a sociedade que temos. Não a mudarei sozinha, mas enquanto puder ajudar, assim o farei.
Um beijinho.
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De Anónimo a 14.06.2016 às 12:03

Espectacular Carolina, tanto que tomei a liberdade de o publicar em:
https://www.facebook.com/notes/ant%C3%B3nio-centeio/sem-abrigo-ou-pessoa-completamente-normal/10153928706353451
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De Carolina a 14.06.2016 às 13:36

Obrigada caro Anónimo! Fico muito contente.
Beijinhos
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De sally a 14.06.2016 às 13:04

Louvo a sua atitude Carolina. Mas entendo a do sem abrigo, desprotegido, frágil, farto de ser enganado, cheio de medo de tudo e todos ele não distingue as pessoas... são o outro lado de onde ele vive. A reacção dele foi normal...
Trata-se antes de um tudo de um ser humano que tenta proteger-se...
Parabéns pelo seu texto e pela abordagem a um tema social.
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De Carolina a 14.06.2016 às 13:37

Gostava tanto que as coisas não fossem como as descreve... mas são, e o pior é que não se fala sobre isto.
Obrigada Sally, beijinhos.
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De #HOTDEVIL a 18.06.2016 às 21:24

Aplaudo o gesto da Carolina !
Como pessoa que já viveu uma vida carenciada e que também já teve muito, devo dizer-lhe que - efetivamente - existe um sentimento quando se está na pobreza de " tudo o que nos resta é a dignidade " ! Infelizmente, o povo Português ainda se recusa muito a colocar-se nos pés das pessoas carenciadas, são como uma epiderme que pode pegar-se, uma espécie de lepra... Pessoas carenciadas não só não são ajudadas a não inserir-se na sociedade, como ainda são menosprezadas e atiradas para um canto... Quando eu tinha algum, era uma cidadã que partilhava sempre com os sem-abrigo, parecia que previa que - um dia - seria uma pessoa carenciada lado a lado C/eles na sopa dos pobres. Não imagina os cidadãos fantásticos, inteligente, cultos e educados que encontrei na Sopa dos Pobres. Um dos Sem Abrigo pedia-me se ao passar pela biblioteca (onde acedia a Internet) lhe poderia trazer sempre o Jornal de Notícias. Não possuía um teto sequer mas queria saber como se encontrava a situação do país, as notícias que haviam sagrado na noite anterior e a hora do jantar com uma sopa a nossa frente e duas sandes era a política do país que se discutia, os nossos políticos, as suas decisões... Aparte eu que possuía um quarto alugado + algumas famílias da Europa do Leste que possuíam teto também, os restantes voltavam para a rua ou tentavam arranjar abrigo para a noite na Rua do Rosário do Porto... Pouquíssimas pessoas sabem que as suas vidas foram desgastadas por erros (alguns até irrelevantes e ínfimos) que os levaram até ali, abandono familiar, divórcios, perda de empregos ! Antes de se tornarem sem-abrigos muitos deles eram cidadãos abastados que haviam lido Shakespeare, Alexandre Dumas... Recordo-me de um dos sem-abrigo me recomendar " O Conde De Monte Cristo " e relatar-me a história toda de Dante. Mercedes & Fernando ! Quando saí daquela situação uma das primeiras coisas que fiz foi comprar exatamente esse livro ! Obrigado por ser tão humana Carolina. O mundo precisa de mais pessoas como você !!!

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